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terça-feira, 23 de abril de 2024

TEXTO XXI

 A nova língua portuguesa

Desde que os americanos se lembraram de começar a chamar aos pretos "afro-americanos", com vista a acabar com as raças por via gramatical, isto tem sido um fartote pegado!

As criadas dos anos 70 passaram a empregadas domésticas e preparam-se agora para receber a menção de auxiliares de apoio doméstico. De igual modo, extinguiram-se nas escolas os contínuos que passaram todos a auxiliares de ação educativa. Os vendedores de medicamentos, com alguma prosápia, tratam-se por delegados de informação médica. E pelo mesmo processo transformaram-se os caixeiros viajantes em técnicos de vendas. O aborto eufemizou-se em interrupção voluntária da gravidez. Os gangs étnicos são grupos de jovens. Os operários fizeram-se de repente colaboradores. As fábricas, essas, vistas de dentro são unidades produtivas e vistas da estranja são centros de decisão nacionais. O analfabetismo desapareceu da crosta portuguesa, cedendo o passo à iliteracia galopante. Os gordos e magros passaram a ser pessoas com disfunção alimentar.. O mongolismo passou a designar-se síndrome do cromossoma 21.

Os mentirosos passaram a ser pessoas com grande imaginação. A Ágata, rainha do pimba, cantava chorosa "sou mãe solteira"; agora, se quiser acompanhar os novos tempos, deve alterar a letra da pungente melodia "tenho uma família monoparental"- eis o novo verso da cançoneta, se quiser fazer jus à modernidade impante. As putas passaram a ser senhoras de alterne. Os pretos passaram a ser pessoas de cor. Desapareceram dos comboios as primeiras e segundas classes, para não ferir suscetibilidade social das massas hierarquizadas, mas por imperscrutáveis, necessidades de tesouraria continuam a cobrar-se preços distintos nas classes conforto e turística.

Ainda há cegos, infelizmente. Mas como a palavra foi considerada desagradável e até aviltante, quem não vê é considerado invisual.

( O termo é gramaticalmente impróprio, como impróprio seria chamar inauditivos dos surdos, mas o "politicamente correto" marimba-se para as regras gramaticais).

Difícil, dramático, desastroso, congestionado, problemático passou a ser sinónimo de complicado.

O conceito de corrupção organizada foi substituída pela palavra sistema. Aquietadas pela televisão, já não se veem por aí aos pinotes crianças irrequietas e terroristas diz-se modernamente que tem um comportamento disfuncional hiperativo. Para compor o ramalhete e se darem ares, as gentes cultas da praça desbocam-se em "implementações", "posturas pró-ativas, "políticas fraturantes" e outros barbarismos de linguagem.

E assim linguajamos o português, vagueando perdidos entre a "correção política" e o novo riquismo linguístico. Estamos lixados; não admira que o pessoal tenha cada vez mais esgotamento e stress. Já não se diz o que se pensa, tem de se pensar o que se diz de forma "politicamente correta"

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