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segunda-feira, 15 de abril de 2024

TEXTO XIX

 Você já pleonasmou hoje?

O sintoma desta doença é a verbalização de pleonasmos ou redundâncias que, como objetivo de reforçar uma ideia, acabam por lhe conferir um sentido quase sempre patético. Definição confusa? Aqui vão quatro exemplos óbvios: subir para cima, descer para baixo, entrar para dentro e sair para fora. Já se reconhece como paciente de pleonasmite? Ou ainda está em fase de negação? Olhe que há muita gente que leva a vida a pleonasmar  sem perceber que pleonasma a toda a hora. Vai dizer-me que nunca recordou o passado? Ou que nunca está atento aos pequenos detalhes? E que nunca partiu uma laranja em metades iguais? Ou que nunca deu os sentidos pêsames à viúva do falecido? Atenção que o que estou a dizer não é apenas a minha opinião pessoal. Baseio-me em factos reais para lhe dar este aviso prévio de que esta doença má atinge todos sem exceção. O contágio da pleonasmite ocorre em qualquer lado. Nas agências de viagens que anunciam férias em cidades do mundo; no local de trabalho, o seu chefe pede-lhe um acabamento final naquele projeto. Tudo para evitar surpresas inesperadas por parte do cliente. E quando tem uma discussão mais acesa com a sua cara metade, diga lá que às vezes não tem vontade de gritar alto: Cala a boca! O que vale é que depois fazem as pazes e vão ao cinema ver aquele filme que estreia pela primeira vez em Portugal. E se pensa que por estar fechado em casa ficará a salvo da pleonasmite, tenho más notícias para si. Porque a televisão é, com certeza absoluta, a principal protagonista da propagação deste vírus. Logo à noite, experimente ligar o telejornal e verá com os seus próprios olhos.

Um jornalista vai dizer que a floresta arde em chamas. Um treinador de futebol queixar-se-á dos elos de ligação entre a defesa e o ataque. Um governante dirá que gere bem o erário público. Um ministro anunciará o reforço das relações bilaterais entre dois países. E um qualquer político da nação vai pedir um consenso geral para sairmos desta crise. E por falar em crise! Quer apostar que na próxima manifestação vai juntar uma multidão de pessoas? Ao contrário de outras doenças, a pleonasmite não causa dores desconfortáveis nem hemorragias de sangue. E por isso podemos viver a vida com um sorriso nos lábios. Mas como lhe disse no início, o descontrole da pleonasmite pode ser chato para os que o rodeiam e nocivo para a sua reputação. Os outros podem vê-lo como um redundante que só diz banalidades. Por isso, tente cortar aqui e ali um e outro pleonasmo. Vai ver que não custa nada. E já agora siga o meu conselho: não adie para depois a comece ainda hoje a encarar de frente a pleonasmite. Ou então esqueça este texto. Porque afinal de contas eu posso estar só maluco da cabeça.

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